A
expressão "ecologia profunda" foi criada durante a década de 1970
pelo filósofo norueguês Arne Naess(foto), em oposição ao que ele chama de
“ecologia superficial” – isto é, a visão convencional segundo a qual o meio
ambiente deve ser preservado apenas por causa da sua importância para o ser
humano.
Ecologia
superficial é, sinteticamente, olhar para a natureza como uma fonte de
recursos, ver a árvore e enxergar a madeira, preservar o rio pois sem ele não
há água para consumo,etc. O ser humano é dominador/controlador, a natureza o
serve e não o contrário.
Ecologia
profunda, como o próprio nome sugere, coloca o ser humano como parte integrante
da natureza. Não somos seus dominadores, somos seus compostos. Não há separação,
respeitamos a natureza e tudo que nela está por motivos muito além da
sobrevivência, porque enxerga-se que outros seres não são menos importante do
que nós, não têm menos direito a usufruir da sua parcela de espaço neste globo
quando comparados aos homens. Imersão total, tanto física, quanto mental e
espiritual. A ideia central da ecologia profunda é: a natureza possui valor em si mesma.
Dando um rápido olhar para a sociedade
desenvolvimentalista contemporânea percebemos que o primeiro modelo citado é
soberano nas nações. Isso nos faz pensar: Porque esse foi escolhido e não
aquele? Baseamos o desenvolvimento da qualidade de vida de um país muito em
conta do seu crescimento econômico e esse por sua vez é embasado no avanço da
ciência e tecnologia. Ou seja, um dos pilares de como a sociedade evolui está
contida na epistemologia científica. Por fim, para entendermos o porque a
"ecologia superficial" ser predominante, é necessário voltarmos ao
passado, no desenrolo da filosofia cientifica ocidental.
A
ciência atual, apesar de muito ter avançado os seus debates a cerca do papel da
ciência no mundo tal qual sua forma de agir, ainda possui características do
modelo empirista-positivista. O empirismo foi lançado por Descartes e Bacon,
resumidamente afirmavam que para se conhecer é necessário provocar a natureza,
interferir, instrumentalizar, medir, calcular. O cientista deve colocar as
forças, os elementos do experimento em choque e a partir disso, de uma maneira
distanciada e neutra, obter os resultados e deles extrair suas preposições e
teorias explicativas.
Aqui
podemos problematizar duas coisas: em primeiro lugar que por mais que o homem
deseje, ele nunca deixa de fazer parte da natureza. Hoje sabemos que mesmo em
níveis subatômicos, só o fato de medirmos algo altera o experimento. Nossa pré-concepção
a respeito de algo que já existe antes mesmo do experimento ser feito, e isso
se altera de acordo com a cultura, tempo e contexto no qual estamos inseridos.
Por exemplo, num famoso caso citado por Chalmers (1980) mostra-se um desenho
cuja representação parece ser de uma escada. Os ingleses que viram o desenho
prontamente diziam se tratar de uma escada. O mesmo desenho então foi mostrado
a aborígenes da África, e para eles não passava de um monte de linhas
interconectadas. Isso ocorre porque para tais arborígenes não existe a ideia de
profundidade em suas representações planas (desenhos em 2D). Um mesmo objeto
obtem significados diferentes de acordo com o observador. O significado muda, porém o objeto sempre foi o mesmo! Se é mutável
significa que é tudo, menos neutro. Se só o fato de observar, medir e
interferir altera os resultados, consequentemente não há maneira de se afastar
totalmente do seu próprio experimento, de todo em todo, não há experimento 100%
livre de interferência humana, não há separação.
Em
segundo lugar, mesmo Descartes e Bacon alertaram em suas escrituras para que o
humano não se visse como algo separado de tudo. Bacon diz: " Para dominar
as leis da natureza, antes é necessário obedecê-las". Descartes, rotulado
como um dos pais de medicina ocidental, sempre considerou que o humor e as
emoções dos seres humanos afetavam sua saúde, que havia um corpo metafísico e
que este afetava cada um de nós. O homem só poderia ser completo se estiver em
consonância com seu lar natural, a natureza. Tal sabedoria só foi se inserir
recentemente na medicina moderna ocidental: sabe-se que o contato intimo com a
terra pura, o sol e ar das matas traz alívio das tensões, melhora os batimentos
cardíacos, a imunidade, o descanso e afeta positivamente os ciclos corporais,
sobretudo o complexo e sensível ciclo ovular das mulheres.
Essas
problematizações colocadas acima foram feitas mas não acolhidas. Nossa ciência
se esqueceu da essência do pensamento de seus principais idealizadores,
passamos por cima da integração e nos afastamos de tudo o que é verde e puro. A
preocupação veio em cima do conforto sem se pensar nas consequências disso, e
derrepente aquilo o qual era realmente importante ficou para trás (diminui-se
em 40% a biodiversidade do planeta em 30 anos (Convenção sobre Diversidade
Biológica, 2006)). Felizmente tal
processo não passou desapercebido por muitos e os contra-movimentos surgiram,
dentre eles a permacultura e a ecologia profunda.
Ecologia
profunda dessa maneira é, de certa forma, recuperar esse contato primordial
entre nós e a natureza, voltarmos ao seio materno que sempre nos nutriu e tanto
foi maltratado. Descamar-se do trivial,
da quantidade, e ficar nu para abraçar o essencial e a qualidade.
Cauteloso, Arne Naess recusou-se a criar um sistema racionalmente coerente – um circuito fechado de idéias – capaz de limitar o conceito de ecologia profunda, e manteve-o como uma idéia aberta segundo a qual a variedade da vida é um bem em si mesma. Para Naess, esta ecologia surge do reconhecimento interior da nossa unidade com a natureza. O fato nem sempre requer explicações e muitas vezes não pode ser descrito com palavras. Mas a ação freqüentemente mostra com clareza o que é ecologia profunda.
Em certa ocasião, um rio da Noruega foi condenado à destruição para que fosse construída uma grande hidrelétrica. As margens do curso d’água seriam inundadas para que se fizesse o lago da barragem. Um nativo do povo Sami recusou-se, então, a sair do lugar. Quando, finalmente, foi preso por desobediência e retirado dali à força, ele não teve opção. Mais tarde a polícia perguntou-lhe por que se recusara a sair do rio. Sua resposta foi lacônica:
“Este rio faz parte de mim mesmo”.
O indígena estava certo. O meio ambiente faz, realmente, parte de nós mesmos. São dele o ar que respiramos e a água que compõe 70 por cento do nosso corpo físico. Dele vêm os nutrientes que renovam a cada instante as nossas células. Esta unidade dinâmica não está limitada ao plano material da vida, mas também é psicológica e espiritual, mesmo que alguns de nós não tenham plena consciência disso.


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